sábado, 11 de setembro de 2010

O Poeta iletrado (A meu pedido)



A MEU PEDIDO REEDITO ESTE POEMA.



Então! Era uma vez:
Numa pequena cidade
muito pequena talvez,
para conter tanta maldade.

Porém neste vilarejo nascera
forte, uma linda criança
que sofrendo muito, crescera
réprobo pela vizinhança

Nem passou perto da escola,
audácia ele se atrever
entretanto só por esmola
analfabeto lhe deixaram viver

Uma batina em algodão cru
era que o menino vestia
só para não lhe ver nu
o padre por "nobreza" cedia

Era só o que faltaria
além de pateta o esfomeado
sem aquela batina estaria
completamente pelado

Mas ao cabo de dois anos
vejam só quanta ironia
com andrajos franciscanos
é que sua roupa parecia.

Assim sopravam os ventos
perambulava o chamado pateta
Mas ora vejam! Ele tinha intentos
de um dia se tornar um poeta.

Mas esse louco queria
uma coisa tão estranha
logo ele que vivia
numa miséria tamanha.

Mas que menino tão tolo
ser poeta sem saber ler
nem um nome por consolo
lhe fôra dado saber.

Assim de um lado para outro
como bardo louco corria
sujo e suado como um potro
todos riam, ele sorria.

Sem um nome e iletrado
sonhava amores na primavera
lhe chamavam de enjeitado
e ele nem sabia o que era.

Seus olhos ninguém via
jamais ousara olhar alguém
amava uma moça? Mas quem seria?
Nunca diria, nem ao padre, nem a ninguém.

Um dia, o poeta cometeu um engano
quis ao seu amor um poema recitar
Mas que petulância, farrapo humano
poeta pateta está querendo apanhar.

E naquele domingo na praça da igreja
uma linda moça para o poeta olhou
com lindos olhos verdes como carqueja
faces macias que o sol corou

Aquele olhar tão belo e franco
encorajou o poeta a seguir
e duma folha de papel em branco
que lia algo, começou a fingir.

Eram palavras singelas
mas de tão belo sentimento
que as pessoas nas janelas
se emocionaram por tal lamento

O amor ao vento ecoava
na bela voz daquele menestrel
mas esse vento que soprava
traria notícias de um destino cruel.

Uma mulher fina, mas invejosa
logo começou a comentar,
"mas que memória prodigiosa
para tantos versos guardar".

Os olhos da moça brilhavam
num verdejante fulgurar
enquanto os versos voavam
a Deusa da Arte se fez presenciar.

Até Hélios, o deus do sol, recuou
com a presença da formosa deusa,
o vento que era forte amainou
diante dum quadro de tanta beleza.

A moça sorria em toda sua graça
o poeta delirava o seu insano irromper
naquele domingo em plena praça
declamava o poema que ele não podia escrever.

Porém o jovem poeta sentiu
toda força da divindade
um grande estrondo se ouviu
estremecendo a cidade.

A Deusa da Arte abraçou
aquele pobre menino
e consigo ela o levou
para o seu verdadeiro destino.

Assim quis a divina musa
em toda sua sabedoria
que aquela gente tão confusa
seus versos não mereceria.

Então um tiro cruel e certeiro
atingiu o peito do poeta
que caindo por inteiro
deixou a sua poesia incompleta.

Porém a deusa da sorte
ainda tinha outro querer
dar ao poeta em sua morte
o que ele não teve ao viver.

Foi então que a donzela
de verde jade no olhar
sobre o poeta defronte à capela.
tombou já sem respirar.

Os dois que aquela vil cidade
não lhes merecera jamais
viveriam toda liberdade
noutro plano onde todos são iguais.

O poeta então viveria
o seu eterno devaneio
para a sua amada cantaria
versos plenos de floreio.

Porém a deusa em sua vingança
ainda não estava satisfeita
chamou Eólo em sua presença
e deu-lhe a última empreita.

Mandou que o deus do vento pegasse
toda palavra que do poema foi perdida
e que todo domingo a soprasse
que na cidade inteira fosse ouvida.

Apesar de toda a sua vaidade
aquele povo se convenceu
que o único artista de verdade
a pobre cidade perdeu

"A cidade do poeta andante"
assim ficou conhecida
todo domingo em qualquer brisa pulsante
a bela voz do poeta era sentida.

A Deusa da Arte escolhe seus filhos
mas nem sempre lhes deixa viver
melhor mantê-los em eterno exílio
do que deixá-los sofrer

E a vila e seus moradores
foram condenados a eternamente ouvir
nos versos do iletrado, suas dores
e todo o seu amor
num mais puro
sentir.

4 comentários:

Sonhadora disse...

Meu querido Ricardo
Ainda bem que pediste este poema, é maravilhoso.

E a vila e seus moradores
foram condenados a eternamente ouvir
nos versos do iletrado, suas dores
e todo o seu amor
num mais puro
sentir.

Muito lindo mesmo, meu querido.

Beijinhos com carinho
Sonhadora

Cynthia Lopes disse...

Posso ouvir o poema, caro Menestrel, sendo cantado por ti ao som deste seu alaúde. Muito lindo, guri!

Mª Dolores Marques disse...

Ricardo, já tenho lido poemas com esta cadência a jeito de ser cantado, dito e redito, musicado. (declamado)

Contudo, as imagens, tão ao jeito de quem escreve sob a forma de se dizer, auscultando os sons interiores de quem sabe que para se ser poeta, é só preciso sentir, tal como se sente o pulsar de uma pedra tosca, para de seguida se moldar nas suas mãos.(tuas mãos)

O início é brilhante: Então! era uma vez" Como se o poema nos quizesse dizer que vem de longe a sua ânsia em ser poema. Não sei!

Todo o conjunto com um fio condutor que nos leva a lê-lo de um só fôlego, com vontade chegar ao final e saber o desenrolar da história.

Continuando:

"Até Hélios, o deus do sol, recuou
com a presença da formosa deusa,
o vento que era forte amainou
diante dum quadro de tanta beleza."

Esta parte, fez-me ausentar por momentos do poema e até do que te ia dizer, porque diz exactamente o que vejo neste teu poema."Um quadro de tanta beleza"

Gostei e penso que tu percorres vários caminhos, mas sempre surpreendendo...

beijo

cibele nakamura disse...

O teu sentires é de uma sensível e rara beleza, e se propaga em tudo que fazes. Sua arte é muito envolvente... me conquistou!
Beijos