sábado, 7 de fevereiro de 2009

Versos para a próxima viagem


Teus belos olhos vendados

que tudo podem sentir

mesmo os caminhos fechados

para onde devo seguir.


O vento que sacode a cortina

desvendando os meus segredos

deixou alguns para a minha retina

reter à custa dos medos.


Eis que me vejo tão liberto

assim com Gerión, abro minhas asas

como Moshe, abri o "deserto"

soprando a cinza deixando as brasas


Minha visão ainda é criança

perto de ti, sou um menino

Quando olho não vejo, respiro esperança

de um dia mudar o meu cego destino

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Às margens de um rio


Não pude mais seguir

o cansaço foi mais forte.

Em meus olhos havia a escuridão

do caminhante vencido!

Junto de ti estava Beatriz

Tu, a ninfa preferida.

Ela, a virgem que guardava as margens

do Eunoé.

Junto de nós toda a imensidão do tempo.

Tempo em que ficamos apiedando-nos

Vidas que perdemos pedindo perdão,

noites em que não sonhamos.

Junto de mim, a fraqueza humana

aos acordes do vento

que balançava a floresta idilíca.

De tanta sede caí às margens do rio

da sagrada água, bebi.

Não era mais um sonho,

era a busca da vida

que por medo

não vivi.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Havia luar em Nínive


Chamei-te, mesmo pois parecia tão tarde,

estavas viajando numa visão de outono!

Para mim parecia normal.

Olhei para a rua e vi um homem!

De tal forma postado num galopar garboso,

lembrou-me Assurbanipal de Nínive,

caçando leões numa Mesopotâmia imaginária.

Cedi aos impulsos e concluí algo há duas noites

começado!

Havia luar iluminando a cidade.
Parecia normal!

No fundo eu queria que houvesse escribas,

pensei, belas passagens

para registrarem em suas placas.

Na rua a caça havia terminado!

Fechei a minha janela voltei

para dormir.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Rascunho de sépia ( Anjo sobrevivente )


Quando a porta se fechou às suas costas

tudo que era real encerrou seu ciclo.

Era necessário que a vida invadisse o vácuo

e propagasse em pó uma nuvem plástica.

Teu corpo se despedaçou espalhando o meu grito,

ficou só meu olhar na penumbra abissal.

Cada direção buscava em si uma passagem

que nos levasse ao espaço, numa vertigem neurótica.

Nada aconteceu que se soubesse ser puro.

Os cantos da casa refletiam angústia,

os gigantes dos livros escondiam-se no chumbo.

Das patas da besta escutei o clamor,

nenhuma pessoa ou de pelo, um bicho,

poderia testemunhar tal vergonhoso ardor.

Nenhum barco estava a esperar às margens do limbo.

Caronte não ouvia meu grito gutural.

Não havia água que me matasse a sede.

Nada, nem nunca, enquanto

a sépia riscava meu rosto

dum reflexo de espelho

rascunho me tornei.

Envelhecemos todos, a miragem e eu.

Nem um espectro de mal cheiroso suor.

Nada ficou para a Hidra ordenhar

que nos esperava no fundo

insondável de cada olhar.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Solsimim



Eu era pequeno


pés nus sobre


o assoalho desgastado!


A música invadia a casa,


enquanto minhas mãos


maltratavam um velho violão.


Era pequeno


e a casa já era velha,


os cupins agitavam -se


fazendo parte do trabalho


que caberia ao tempo.


Eu ouvia


o seu serrilhar incansável.




A música era silenciosa


e parou.


Deixei a mão esquerda dormir,


a outra apoiou-se nas cordas do violão,


fazendo parte do trabalho


que caberia ao vento,


se soprasse seria


assim,


Mi


Lá


Re


Sol


Si


Mim.




Ainda sou pequeno.