domingo, 16 de maio de 2010

O canto das horas.


"Menina na janela-Salvador Dali".




A noite soltou um grito
eram os espasmos das nuvens
ao fugirem do sol.
Restaram estrelas, brinquedos de lua
e assim se fez a luz do luar.
Em cada ser, o presente
buscou um sentido,
eu impediria se pudessem me ouvir.
Muitos se esconderam
atrás do sebo derretido das velas,
velhas fórmulas pacíficas
que tudo vêem e nada podem sentir.
As sombras se desfizeram
antes da noite gritar...teu nome,
antes do meu silêncio,
antes do canto e dos santos.
Alguém me lembrou do andar das horas
as mesmas que fazem a noite voltar.
As que me fazem pensar
nas coisas pequenas, amenas
loucas palavras
depois de tanto
calar.

sábado, 15 de maio de 2010

Catavento. Moinho de vento do parcão Porto Alegre


Catavento
cata o intento
enche a barriga de vento
gira gira sem sair do lugar.
Catavento
seu contratempo
é se um dia o vento
parar de ventar.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Romaria por nada.

Este é o momento
de pensar afinal
que a vida inteira
pode ser
um capítulo resumido
de uma novela
escrita com o dedo
lambuzado nas fezes
de uma cobra coral
deixadas sobre um prato
de vidro amarelo
que gira noutro prato
dentro do micro-ondas
com micro ondas quebrando
nos peitoris das janelas
na lanchonete
à beira da estrada
que leva romeiros
ao sítio da santa
com seu rosário de pedras
cintilantes onde as rezas
se repetem até o fim
da tarde que traz a lua
divida em pequenos pedaços
iluminando os espaços
fazendo o rio transbordar
fora do leito
meio sem jeito
e a chuva solta um pingo
quando for domingo
o pai de um gringo
na porta da venda
fumando cachimbo
e o sol vem vindo
iluminando os espaços
divididos em pedaços
onde jaz a lua
na boca da rua
que se repete
como reza da santa
que esperam os romeiros
que vêm pela estrada
até a lanchonete
no umbigo do dia
cotovelo da tarde
orelha da noite
abrem o micro-ondas
retiram do prato
de vidro amarelo
uma poesia vermelha
de fezes e sangue
da cobra
coral.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Pacto

Até hoje fiz tudo do jeito que me ordenaste.
Aceitei o sofrimento que me impingiste.
Jamais reclamei, se chorei foi em silêncio.
Até hoje suportei as humilhações que me impuseste.
Varei noites insone para honrar teu reino.
Sofri as angústias de fracassos e engodos
pela tua grandeza.
Nunca olhei para o passado
com olhos de incerteza quanto ao futuro.
Ouvi risos, sarcasmos e ofensas.
Tudo por querer te amar o tempo inteiro.
Te entreguei a minha vida, dentro dela, as asas
da minha liberdade.
E nunca me julgaste digno de ti.
Até hoje, não sei quem és,
nem sei quem sou, mas
morrerei gritando
teu nome.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Para onde vais gaudério?

De onde vens gaudério?
Com essa cara tristonha
com esse olhar de quem não sabe
a diferença entre
viver e sonhar?
Para onde caminhas, triste vaqueano?
Não vês que teu tempo terminou, mas a estrada
não termina?
Para que mentir, gaudério,
com essa saudade sem pátria?
Com essa calma patética
e esse pesar?
Toma cuidado com a vida que trazes.
Esquece teu sonho
e busca tua paz.

Já não há caminhos distantes,
noites de luas nem picadas cerradas.
Já não há campo aberto, galponeiras
risadas ou um amigo por perto.
Já não há as geadas cortantes
o pó das estradas nem o gado bravio.
Não há mais as virtudes das parcerias
da vida de sonhos
das carreteadas
nem minuano a soprar.

Para onde vais gaudério?